20/11/2010

amigo visita

...Quem?

Aqui?

Não, acho que o senhor se enganou de endereço. Este número não existe.

Derrubaram uma casa logo ali adiante, foi para colocar o alicerce daquele viaduto. Mas faz anos, eu era menina.

Pra onde ele foi? Acho que voltou pro Nordeste. Ou ganhou na Mega-Sena ou foi preso. 

Sei lá, tem diferença?

Não tenho endereço não. Agora, o senhor me dá licença que tô ocupada."

Fecha a porta. Lá em cima do viaduto passa sirene.


O homem coça a cabeça. Lê o endereço. Confirma os números. Olha pra lá, olha pra cá... e nada parece com as lembranças que tinha do lugar. O viaduto sustentado por alicerces delgados como girafas. Onde antes havia árvores estão postes de iluminação. Uma quadra de casas geminadas deu origem a uma fábrica abandonada. Os jardins viraram recantos de entulhos e cacos de azulejo. O campo de bater bola agora virou catedral dos crentes. Ele sabe que são lembranças reais e não de um sonho: o que diferencia uma da outra é uma certeza fina, tênue, resistente como uma teia de aranha. E é só por conta desta certeza que ele caminha até o alicerce do viaduto. Uma parede milagrosamente limpa de grafiteiros e pichadores. Até agora.

Escreve sua mensagem ao amigo. É breve. Descreve como está a vida, como andam os filhos, os dias tediosos do trampo, o último filme a que assistiu. Pensou em deixar email, número de celular. Mas não sabe se haveria conversa para tanto. Depois vai embora sabendo que logo o temporal de verão vai apagar o giz.


Brontops

28/09/2010

Gina Dinucci - da série Memoria ou Intuição - 2009

26/09/2010



Inês Correa - It's Blue Blood I e II - NY - 2010
www.corpoemimagem.blogspot.com

21/09/2010

(apanharam-nos no ninho, quando nossos olhos sequer tinham se aberto. Colocaram-nos em gaiolas, e disseram: "agora esse é o céu". E foram dormir, achando que tinham nos calado. Mas a manhã veio e o cantar despertou dentro de nossos pequenos peitos amarelos. Eles não queriam acreditar naquilo. Cortaram nossas asas. Com toda a crueldade possível, cortaram nossas asas. E foram dormir, achando que tinham nos calado. Mas a manhã veio e o cantar despertou dentro de nossos pequenos peitos amarelos. Agora sim, tínhamos comprado briga com eles. Arrancaram nossas penas, furaram nossos olhos, nos deixaram sem água e comida. Foram dormir. A manhã veio e o cantar despertou dentro de nossos pequenos peitos amarelos. Eles nos mataram e jogaram nossos corpos em meio aos ratos. Foram dormir, achando que tinham nos calado. Mas a manhã veio e o cantar despertou, agora de dentro de um céu vermelho vivo, em brasa.


Murilo Hildebrand de Abreu

17/09/2010

sobras

narro a sobra
que esqueceste - propositalmente -
de teu corpo
sobre mim


um gato,
uma fuligem
sinais de adeus


Mariana Campos
http://buhobranca.blogspot.com/
Thamara Rossi - Sobreposição - Fotografia/ Desenho 2007 - Restos 1

06/09/2010

Kiko Dinucci - Odeio Grafitti Baixo Espiritismo na Barra Funda - técnica mista 
Juliana Rocha - Subsistia - Nankin s/ papel - 2010

05/09/2010

Brunon Alcyones  - VITORIA- técnica acrílica e colagem - 2010
Marcio Marianno - 7:20 da manhã - lápis e photoshop - 2009
Carol Santos -Sem título - Fotografia - Jan/2010
Tabyta Yasmin - Rabiscado - fotografia - 2010
Juliana Rocha - Sobejo do Lago - Nankin s/ papel - 2010

27/08/2010

 Koisan uchoà - Elos - fotografia - algum dia de 2006.

18/07/2010

descartáveis
consumimos 
plásticos
sobras
plásticas
feições
impermeáveis
montes 
caixas
latas
garrafas
embalagens
recicláveis 
em aterros
clandestinos 
da Maré
desterros
favelas
incontáveis
restos
catadores
rostos
tesouros
humanos
estimáveis
bens
materiais
valores
patrimônios 
imateriais
inestimáveis
perdas 
desperdícios
de energia
geradores
indivíduos
apreciáveis
gastos
racionais
encefálica
massa
de resíduos
sólidos
indispensáveis
leitos
lençóis
freáticos
controle
freios
imprescindíveis
desejáveis
feitos
com efeito
sobre efeitos
implacáveis
sustentáveis
ações 
reparações
reparos
ações 
tentáveis


(Marcio Nicolau)
www.espacointertextual.blogspot.com

16/07/2010

André Mutton - verbo - fotografia - 2010

13/07/2010

Marcelo Marsan - Soberano - fotografia  - 2010

05/07/2010





Eu cry me a river.
de portas e janelas fechadas.
e ele corria.




Lucas de Oliveira
Rodrigo Motta - Sem Título - 2008

02/07/2010

23 de novembro de 1979*

Trabalhar em barco foi uma das piores coisas que já fiz. Todo dia era aquela solidão esticada. De noite, diante do mar, não havia nada além da escuridão.
Pouco se conversa nesses momentos. A audição deve ser o principal sentido, pois o invisível prega peças e o mar braveia a qualquer hora.
Quantas madrugadas de mar revolto. Afoito. Passei a odiar meu antigo companheiro. Justo ele, que sempre foi meu confidente, minha memória e meu pensamento. Embarcado, era meu inimigo.
Não havia mulheres e músicas compactuando cigarros e beijos. Não havia trapiche. Havia apenas outros inseguros homens à espera do porto: nossa mais ansiosa promessa. Em terra firme teríamos o amor rápido e a pesagem do camarão.

*Trecho de Retratos da Garoupa de Fernanda Grigolin,  livro ainda inédito