14/08/2009

"Love is these blues that I´m singing again"


Tasso pediu um tempo.


Homem não pede tempo, Renata sabia. Homem não precisa de tempo para refletir, ver o que quer de um relacionamento. Quem pede tempo são as mulheres. Mulheres: ansiedades e expectativas. Renata tinha certeza, ele arrumou outra. Mas ocultou suas suspeitas. Fixou-se nas ruas, nos faróis e lanternas dos automóveis, nas janelas apagadas dos edifícios, nas luzes coloridas no display do som. Ela perguntou se deveria esperar sua ligação, Tasso achava que sim, qualquer coisa ligaria no domingo ou segunda. Ele queria manter o vínculo. Renata concluiu que não era ainda uma coisa certa. Saiu do carro sem beijar e foi para seu apartamento. O veículo não esperou ela entrar para dar a partida.

Era madrugada, mas o pai ainda não chegara da Superintendência. Devia estar em alguma Operação Satiagraha da vida. Apesar da hora, Renata ligou o micro e foi para a Internet conferir o perfil de Tasso. Foto: ele sem camisa, rindo, óculos escuros sob o sol. Repassou a lista de amigos e os últimos recados. Selecionou duas ou três garotas. Mas o perfil delas era fechado para desconhecidos. Escapou um palavrão, não daria mais para resolver sozinha. O MSN confirmou que o melhor amigo de Tasso estava online. Era Fernandinho. Que está fazendo em casa? Não sabia que ele torcera o pé jogando Wii. Ficaria de molho no quarto um tempo.

Vou ficar aqui só pensando em você.

Fernandinho sempre quis comê-la. Mais de uma vez o flagrou espiando seu decote, os seios magros espremidos pelo sutiã. Durante uma viagem de Tasso a trabalho, eles se encontraram por acaso em um aniversário. Chegaram a dar uns amassos que não foram além de amassos. Fernandinho, bêbado de uísque e baleado pela maconha não deu conta do recado. Vivia pedindo outra chance, mas ela recusava.

Fernandinho confirmou qual das três meninas recebeu recado de Tasso. Dilma. Conhecia de nome. Tatuagem nas costas e piercing no clitóris. O irmão dela, Dirceu, era popular: o rei das rodinhas. Abastecia de ácido a faculdade, tinha uma namorada rica responsável por trazer os selos da Holanda. Renata perguntou se sabia onde morava Dilma. Fernandinho conseguiria descobrir, mas esta troca de favores poderia ficar cara. Renata teclou:

um pau pequeno como o seu não fará estrago kkkkk :

Dia seguinte, Tasso estranhou que Dilma estivesse offline após o almoço. Ligava para ela e só caixa postal. Decidiu dirigir para a casa de Dilma. Ao chegar na rua, espantou-se ao ver a quantidade de carros da polícia. Reduziu a velocidade, mas evitou demonstrar interesse. Ao virar a esquina, ligou para Renata. Ela não atendeu o celular. Não queria ser interrompida.

www.youtube.com/watch?v=PmRJo8RQ5sA

Brontops - 2009 - http://brontops.blogspot.com

09/08/2009

Marcelo Mansann -Tubo de ensaio - fotografia - 2009

08/08/2009

"Brincam com balões coloridos, os pés descalços tocando a grama. Passam de mão em mão os balões e a cada vez extraem dos rostos um sorriso diferente. É então que começam a surgir de todos os lados os cães encantados. Corre-corre, pinga-pinga, pula-pula, late-late. De repente um lance mais forte e o balão atinge a ponta furante de uma lança. Acabou a brincadeira."

Fabiano Ramos Torres - A perspectiva do cão - 2009

06/08/2009

André Piaui - Stars - fotografia - 2008

05/08/2009


Vania Medeiros -Memória em conserva - instalação - 2007
Hugo Perucci - Intervenção digital sobre imagem de Hieronymus Bosch - 2009
Natalia Alavarce - Desdacama - fotografia - 2009

31/07/2009

Tatiana Nolla - s/Título - fotografia - 2009
Fábio Tremonte - Fantasma - fotografia - 2008

Dani Sá - Tempo - fotografia - 2008


CORPO/FRAGMENTO encaixa-se em TEMPO INTERROMPIDO

26/07/2009

(como no amor, para fazer poesia é necessário despir-se do que não somos nós (e talvez por ser poesia a matéria que inundava aquele rio, nós pudemos nos esquecer ali, flutuando em rumo ao flutuar, em rumo à poesia e a nós (só agora posso dizer a você: corpos celestes fertilizaram aquelas águas. Ainda vejo fragmentos deles em seus olhos (talvez seja por isso que os homens nunca vão entender caso não vejam: não há, a não ser que consideremos ser a poesia matéria, o que ela pode ser (mas só caso o homem queira ser poesia

Murilo Hildebrand de Abreu - 2009

10/07/2009

Sinval Garcia - (001) self-portrait - fotocelular, 2009
(Copyright Sinval Garcia 2009 All rights reserved)
© Grupo UMCERTOOLHAR






















Rodrigo Motta - S/ Título - desenho s/ papel - 2008

04/07/2009

Dez dedos

Luís pediu Marisa em namoro. Ela recusou: explicou que se apaixonara pelo menino que sentava à sua frente no banco da igreja, durante as missas de domingo. Luís quis saber quem era o adversário. Descobriu: tratava-se de Inácio, filho do carroceiro. Inácio perdera um dos dedos devido à dentada do Ernandez, o pangaré cheio de berne que ajudava no sustento da família. Luís pediu ao irmão que trabalhava no açougue que lhe cortasse o mesmo dedo em um golpe de cutelo. O irmão assentiu, ele já fora vítima das mesmas paixões da idade. Luís voltou a falar com Marisa. Marisa recusou pela segunda vez. Explicou que Inácio fora salvar uma vira-lata e seus filhotes do ataque de um pit bull pertencente ao capitão Ernesto. Os dentes do cão arrebentaram sua perna de um jeito que os médicos a amputaram. Luís chorou, mas não desistiu. Saltou o muro cheio de cacos de vidro do capitão Ernesto pronto para o sacrifício. O cão veio e lhe estraçalhou um braço e uma perna. As pessoas na cidade o apelidaram de Pirata. Foi bater à casa de Marisa. Ela estava de luto, véu e mantilha preta. Parecia uma velha. Antes de pedí-la em namoro novamente, Luís perguntou sobre Inácio. Inicialmente, ela apontou para uma urna deixada sobre a mesa da sala e só então explicou. O gato da dona Brasilina subira numa das árvores da praça do coreto e não conseguia mais descer. Inácio se prontificou a resgatá-lo. Um toró se achegava. Quando estava para salvar, um raio caiu e incinerou Inácio. Restaram cinzas. Luís resignou-se: pegou um vidro de álcool e se imolou ali mesmo na sala de Marisa, derretendo parte da mobília. Depois de queimar tudo e antes dos pais chegarem, ela varreu as cinzas, misturou bem com as de Inácio, espalhou na cama como se fossem pétalas e deitou nua sobre o lençol vermelho, ela e todos seus dez dedos das mãos.


Brontops - 2009 - http://brontops.blogspot.com

02/07/2009

CIO
Kiko Dinucci e Douglas Germano

Cortina de contas
prisma esparramando luz grená
Língua lambe o lábio maculável,
macia magma.
Velas, cobertor, incensário,
flor, Drummond, baguá.
O roupão largado,
um estorvo pro corpo se mostrar,
vermelho

No espelho de mosaico
ela afasta o cabelo pra se olhar
Arrepio acende, unge, unta,
úiva única.
Unha no tapete
arranhando o carinho que não há
Corpo se aninhando,
contraindo,
pro cio tranbordar,
vermelho.

Interpretação: Metá-Metá - Juçara Marçal, Kiko Dinucci e Thiago França
Alice Coutinho - Pelos Públicos - Tríptico - 2003
Hugo Perucci - Concreto - asfalto s/piso - 2006.
Dani Sá - Fome de Tudo - aquarela s/papel - 2009

01/07/2009

André Gonçalves - E quando o amor me entortou - fotografia
Ivi - S/Título - fotografia - 2007

Maurício Parra - Deep Inside the Heart - gravura em metal - 2009
Vânia Medeiros - Desencuadre - fotografia - 2008

30/06/2009


INFINITO encaixa-se em CORPO/FRAGMENTO

22/06/2009

(emergi música, indispus as asas contra tudo o que não voa. Acordei ouvindo o meu canto, que vinha lá do outro lado de mim (o lado de dentro talvez seja trinado (o infinito talvez seja canoro

Murilo Hildebrand de Abreu

16/06/2009

pela lei natural dos encontros,

eu perco/recebo tanto.

Mistério do Planeta, Os Novos Baianos

Zilma não saiu de casa naquele dia.

Deixou de encontrar o assaltante Alexandre que aproveitaria um descuido para levar-lhe a carteira. Uma quadrilha usaria seus documento em golpes por anos em um outro Estado. Zilma ficaria com o nome sujo. Aguardaria mais que os demais clientes na mesa de análise de crédito até finalmente ser recusada, a despeito de seus protestos. E então numa destas vezes, acabaria se apaixonando pelo funcionário da loja de eletrodomésticos, um sergipano chamado Serapião. Casariam-se e, depois de serem felizes, ele acabaria trocando-a por Giane, uma antiga namorada que conhecera no hospital, enquanto acompanhava sua mãe, vítima de um derrame. Mas talvez não encontrasse o assaltante Alexandre, porque no caminho pararia no supermercado apenas para comprar o que precisava. Diante da abundância de marcas e produtos coloridos, ficaria absorvida mais tempo que o necessário e o encontro com o assaltante não aconteceria. O Alexandre roubaria então um comerciante: na hora de fugir, atravessaria a rua em disparada, e um buraco no asfalto o faria cair sob as rodas de um ônibus. Dentre os passageiros, estaria o desempregado Antônio Coelho que, por conta do acidente, chegaria atrasado ao encontro com sua futura namorada e posterior mãe de seu primeiro filho. O atraso complicaria tudo, Alice receberia um torpedo do seu ex e acabaria desistindo do encontro. Mas a presença de Zilma no supermercado pouparia o ladrão, pois na fila engataria conversa com uma senhora aposentada, dona Tércia. Durante o diálogo que não houve sobre os preços que nunca são satisfatórios, dona Tércia relembraria a falta de material de limpeza. Ela sairia da fila do caixa, ficaria mais tempo no supermercado, e então encontraria Alexandre. Como não houve conversa, dona Tércia só perceberia a falta de material de limpeza no dia seguinte, dia da empregada. Que se chamava Giane e estava apaixonada por um sergipano chamado Serapião. E trabalhava para um português, pai de Antônio Coelho. Que chegou em tempo para o encontro, mas flagrou Alice respondendo ao torpedo. Aquilo gerou uma dúvida, que impediria o namoro de ir mais longe: transaram uma única vez, usando camisinha. E a criança que não nasceu, não se tornaria policial e não salvaria um garoto de afogamento que por sua vez, se tornaria um psicopata, assassino de sete mulheres chamadas Maria, os corpos abandonados à beira de um rio: os jornais chamariam o menino de Cabeça-de-Cuia, uma referência a um monstro folclórico que jamais existiu, por mais que as pessoas insistissem.


Mas Zilma não saiu de casa naquele dia; o homem que a amara na noite anterior a convencera disso. O mesmo homem que revelara o significado de seu nome: escuridão.



Brontops - CONTABILIDADE

09/06/2009


Luis Eduardo Abreu - Mar - fotografia

05/06/2009

Maurício Parra - Escada III - pintura - 2007

04/06/2009


Daniela Pinotti Maluf - Lygia Clark e Merleau-Ponty: Paralelos - fotografia
Fábio Tremonte - Janela - desenho e colagem - 2005
Estava deitado numa calçada fria e seu corpo se esforçava para se aquecer dentro de parcos panos e uma bandeira velha e vermelha. Sentiu um cutucão no ombro esquerdo, olhou no lusco-fusco e seu olhar demorou a reconhecer uma imagem. O autor da cutucada disse:
- Você quer o infinito? Tenho aqui no meu bolso.Basta alguns trocados. O restinho da esmola, sabe.
- Você vende o infinito menino?
- Baratinho.
- Não estou interessado. Me deixe dormir.
O velho chorou e suas lágrimas não foram vistas pelo menino. O matemático socialista não aceitava que até isso virasse produto. “O infinito por trocados”.Se levantou e correu até alcançar o menino.
- Hei, menino! Até quando os números vão?
- Não estou interessado. Me deixe ir.
O velho avançou até ele, esticou o braço esquerdo e lhe deu um soco que atingiu seu olho direito.
- É isso o que eles querem. Que você seja um rato podre que perambule no esgoto desta cidade, seu merdinha. Luta porra!
O menino chorou e suas lágrimas não foram vistas pelo velho. O analfabeto capitalista não aceitava um conselho político após uma porrada no olho. “Até quando os números vão?”
- Até o infinito velho! Se o problema é esse da próxima vez eu vendo a eternidade.


André Amaral - Teorias Infinitas

02/06/2009

Rodrigo Motta - S/ Título - pintura s/ papel - 2008