TEXTURAS, RUÍDOS E MEMÓRIAS encaixa-se em CASULO
25/01/2010
11/12/2009
(e como somos mares sem margens, é impossível que nossas memórias encontrem algum porto (elas também são fluxo, também são mares, marés (passíveis de ganhar novas cores conforme mudam as texturas do céu (se ontem fui náufrago nessas águas é porque ainda não havia aprendido a linguagem das estrelas
Murilo Hildebrand Abreu
02/12/2009
29/11/2009
27/11/2009
Pequenas histórias sórdidas
“Ao passar pela guarita, os funcionários do prédio param de conversar, cumprimentam-no com o habitual boa noite e persistem calados até ele se distanciar rumo ao vestíbulo de seu bloco. No elevador, vigiado pela câmera, confronta-se no espelho. Ele sabe que há quem pense nele como homossexual por morar com a mãe e ouvir música clássica.”
O texto não está bom e fico lendo e relendo o parágrafo antes de decidir o que fazer com ele. Escuto então o chiado dos chinelos atrás de mim e inspiro fundo, preparando-me para sua chegada. Ela me pergunta o que é esta televisão, não tento explicar que é o note. Ela quer saber por que o pai não chegou até agora, eu deveria ligar para o serviço dele. Não repetirei que está morto. Salvo o arquivo, levanto-me. Ela se assusta ao me encarar. Desta vez, me reconhece. Admira-se ou se entristece: Minha Nossa Senhora, como você está acabado. Recomenda que eu largue Madalena, uma namorada antiga. Não sei por onde anda, se anda. Distancio-me rumo à sala, as paredes repletas de retratos e lembranças de lugares que desconheço. Ela me segue, um vulto de camisola, quase uma mortalha, quase um fantasma, não fosse o arrastar da borracha nos tacos. Esta Madalena não é mulher para você. Ela descreve todos os defeitos. Soube só recentemente o quanto a desprezava. Abro o piano e peço para se sentar. Ela ainda toca perfeitamente, quando começa pode ficar entretida por horas, absorta, absoluta, a alma intacta, os dedos ágeis nas mãos carcomidas pelo tempo. Gostaria de ouvir sua música, mas se recusa a me escutar. Percebo que não me deixará em paz. Quer atenção. Incito a contar algo antigo. Antigas histórias com quem já morreu ou quase. Adultérios, trapaças, vícios, torpezas, falcatruas. Algumas ela muda de protagonista para não se comprometer. Mas eu sei: só poderia ser ela. Deixo falar à vontade, enquanto meu olhar passeia pelas molduras e o papel de parede e o intrincado desenho do tapete e a escadaria dentro de outras escadarias dos tacos. O tempo passa e ela não para. Inspiro fundo. Continua seu monólogo, mesmo quando me levanto para buscar um dos espelhos escondidos pela casa. Sem dizer nada, entrego-lhe. Revelo seu rosto de velha, as rugas, os cabelos brancos. Ela se interrompe. Experimenta o relevo de sua própria face e tateia aquela do reflexo. A textura lisa no espelho deveria repousar na pele. Chora e grita. Chama pelos santos de devoção. Ela se afasta em lágrimas sem entender ou talvez entendendo o que acontece. Eu a amparo, a levo para o quarto. Apago a luz e encosto a porta. Ela logo esquecerá. Ela sempre esquece. Volto para a biblioteca sem livros na estante, caixas pardas de papelão pelos cantos, apenas o notebook sobre a antiga escrivaninha. Está tarde, demoro a engrenar: modifico o texto, continua curto, mas hesito em me alongar. Deixo para terminar no dia seguinte. Se conseguir.
“Ao passar pela guarita, os funcionários do prédio cortaram a conversa, deram o habitual boa noite e persistiram calados até ele se distanciar rumo ao vestíbulo de seu bloco. No elevador, vigiado pela câmera, confrontou-se no espelho. Suspeitavam que era homossexual. Não os culpava: um velho solteiro e refinado,cabelos tingidos e gostava de ópera. Ele mesmo pensaria o mesmo. Mas ninguém sabia que os cabelos eram tingidos para a mãe, uma ajuda para reconhecer o filho, mais velho do que deveria ser pela sua memória.
Talvez ele devesse atender a esta suspeita dos vizinhos. Assim evitaria a tentação de se deitar com ela. Seria fácil. Depois de vinte minutos, ela esqueceria e perguntaria pelo pai. Responderia o de sempre, papai acabou de sair. Mamãe então concluiria em um tom cínico e duro: logo vi.”
Brontops - 2009 - http://brontops.blogspot.com
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19/11/2009
17/11/2009
A Perspectiva do Cão.
"Dentro do rato as coisas eram por demais diferentes: somente quando passou a morar no rato é que Bauci pode enfim perceber a gênese dos ruídos: jurava que não estava louca na época em que ninguém ouvia o barulho das coisas sendo arrastadas, como se numa tarde a casa fosse convertida numa casa tomada, coisas que, como que por si próprias andassem de um lado a outro do assoalho. Agora sabia que os ratos eram a causa de tantas insonias. Ocorria que quando eles corriam pelas galerias, os órgãos eram lançados de um a outro lado. Bauci que outrora não dormia por conta do barulho, continuaria, por mais alguns meses, acordada: agora devido a uma atenção dispendiosa para evitar as colisões que certamente a esmagariam como a um filhote de rato sem pelos."Fabiano Ramos Torres, 2009
14/11/2009
12/11/2009
10/11/2009
relevo na leitura
Acuse as alternativas falsas:
a) passando o dedo sobre a folha de papel na qual está impresso o texto, pode-se sentir a textura das palavras;
b)lê-se, com alguma dificuldade, o texto daquela língua cujo vocabulário não se domina;
c)lê-se, com intervalos de apreensão conteudística e reflexão, o texto de informações novas;
d) letras minúsculas em trebuchet seguidas de ) configuram sorrisos;
e) é o tempo, na leitura, quem constitui relevo.
Lucas Oliveira
a) passando o dedo sobre a folha de papel na qual está impresso o texto, pode-se sentir a textura das palavras;
b)lê-se, com alguma dificuldade, o texto daquela língua cujo vocabulário não se domina;
c)lê-se, com intervalos de apreensão conteudística e reflexão, o texto de informações novas;
d) letras minúsculas em trebuchet seguidas de ) configuram sorrisos;
e) é o tempo, na leitura, quem constitui relevo.
Lucas Oliveira
03/11/2009
Parangochamas
Endiabrado, excomungado
sagrado e abençoado.
O corpo se despe dos resíduos
envolto em atemporal vestimenta,
na transparência que a pele pede
nas cores que o poros necessitam.
Na elasticidade que se movimenta
em imaculada e enlouquecida dança.
Na poesia que trafega e trespassa
o espaço em que o corpo se lança,
inabitável na inércia sufocante
amontoado no mofo do esquecimento,
sufocado em meio ás traças felizes
na tristeza em que a arte se decompõe,
dançando seu derradeiro movimento
na liberdade que nasce no fogo.
Ninil
Endiabrado, excomungado
sagrado e abençoado.
O corpo se despe dos resíduos
envolto em atemporal vestimenta,
na transparência que a pele pede
nas cores que o poros necessitam.
Na elasticidade que se movimenta
em imaculada e enlouquecida dança.
Na poesia que trafega e trespassa
o espaço em que o corpo se lança,
inabitável na inércia sufocante
amontoado no mofo do esquecimento,
sufocado em meio ás traças felizes
na tristeza em que a arte se decompõe,
dançando seu derradeiro movimento
na liberdade que nasce no fogo.
Ninil
02/11/2009
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