31/07/2009
26/07/2009
Murilo Hildebrand de Abreu - 2009
21/07/2009
10/07/2009
04/07/2009
Dez dedos
Luís pediu Marisa em namoro. Ela recusou: explicou que se apaixonara pelo menino que sentava à sua frente no banco da igreja, durante as missas de domingo. Luís quis saber quem era o adversário. Descobriu: tratava-se de Inácio, filho do carroceiro. Inácio perdera um dos dedos devido à dentada do Ernandez, o pangaré cheio de berne que ajudava no sustento da família. Luís pediu ao irmão que trabalhava no açougue que lhe cortasse o mesmo dedo em um golpe de cutelo. O irmão assentiu, ele já fora vítima das mesmas paixões da idade. Luís voltou a falar com Marisa. Marisa recusou pela segunda vez. Explicou que Inácio fora salvar uma vira-lata e seus filhotes do ataque de um pit bull pertencente ao capitão Ernesto. Os dentes do cão arrebentaram sua perna de um jeito que os médicos a amputaram. Luís chorou, mas não desistiu. Saltou o muro cheio de cacos de vidro do capitão Ernesto pronto para o sacrifício. O cão veio e lhe estraçalhou um braço e uma perna. As pessoas na cidade o apelidaram de Pirata. Foi bater à casa de Marisa. Ela estava de luto, véu e mantilha preta. Parecia uma velha. Antes de pedí-la em namoro novamente, Luís perguntou sobre Inácio. Inicialmente, ela apontou para uma urna deixada sobre a mesa da sala e só então explicou. O gato da dona Brasilina subira numa das árvores da praça do coreto e não conseguia mais descer. Inácio se prontificou a resgatá-lo. Um toró se achegava. Quando estava para salvar, um raio caiu e incinerou Inácio. Restaram cinzas. Luís resignou-se: pegou um vidro de álcool e se imolou ali mesmo na sala de Marisa, derretendo parte da mobília. Depois de queimar tudo e antes dos pais chegarem, ela varreu as cinzas, misturou bem com as de Inácio, espalhou na cama como se fossem pétalas e deitou nua sobre o lençol vermelho, ela e todos seus dez dedos das mãos.
Brontops - 2009 - http://brontops.blogspot.com
02/07/2009
01/07/2009
22/06/2009
16/06/2009
pela lei natural dos encontros,
eu perco/recebo tanto.
Mistério do Planeta, Os Novos Baianos
Zilma não saiu de casa naquele dia.
Deixou de encontrar o assaltante Alexandre que aproveitaria um descuido para levar-lhe a carteira. Uma quadrilha usaria seus documento em golpes por anos em um outro Estado. Zilma ficaria com o nome sujo. Aguardaria mais que os demais clientes na mesa de análise de crédito até finalmente ser recusada, a despeito de seus protestos. E então numa destas vezes, acabaria se apaixonando pelo funcionário da loja de eletrodomésticos, um sergipano chamado Serapião. Casariam-se e, depois de serem felizes, ele acabaria trocando-a por Giane, uma antiga namorada que conhecera no hospital, enquanto acompanhava sua mãe, vítima de um derrame. Mas talvez não encontrasse o assaltante Alexandre, porque no caminho pararia no supermercado apenas para comprar o que precisava. Diante da abundância de marcas e produtos coloridos, ficaria absorvida mais tempo que o necessário e o encontro com o assaltante não aconteceria. O Alexandre roubaria então um comerciante: na hora de fugir, atravessaria a rua em disparada, e um buraco no asfalto o faria cair sob as rodas de um ônibus. Dentre os passageiros, estaria o desempregado Antônio Coelho que, por conta do acidente, chegaria atrasado ao encontro com sua futura namorada e posterior mãe de seu primeiro filho. O atraso complicaria tudo, Alice receberia um torpedo do seu ex e acabaria desistindo do encontro. Mas a presença de Zilma no supermercado pouparia o ladrão, pois na fila engataria conversa com uma senhora aposentada, dona Tércia. Durante o diálogo que não houve sobre os preços que nunca são satisfatórios, dona Tércia relembraria a falta de material de limpeza. Ela sairia da fila do caixa, ficaria mais tempo no supermercado, e então encontraria Alexandre. Como não houve conversa, dona Tércia só perceberia a falta de material de limpeza no dia seguinte, dia da empregada. Que se chamava Giane e estava apaixonada por um sergipano chamado Serapião. E trabalhava para um português, pai de Antônio Coelho. Que chegou em tempo para o encontro, mas flagrou Alice respondendo ao torpedo. Aquilo gerou uma dúvida, que impediria o namoro de ir mais longe: transaram uma única vez, usando camisinha. E a criança que não nasceu, não se tornaria policial e não salvaria um garoto de afogamento que por sua vez, se tornaria um psicopata, assassino de sete mulheres chamadas Maria, os corpos abandonados à beira de um rio: os jornais chamariam o menino de Cabeça-de-Cuia, uma referência a um monstro folclórico que jamais existiu, por mais que as pessoas insistissem.
Mas Zilma não saiu de casa naquele dia; o homem que a amara na noite anterior a convencera disso. O mesmo homem que revelara o significado de seu nome: escuridão.
Brontops - CONTABILIDADE
04/06/2009
- Você quer o infinito? Tenho aqui no meu bolso.Basta alguns trocados. O restinho da esmola, sabe.
- Você vende o infinito menino?
- Baratinho.
- Não estou interessado. Me deixe dormir.
O velho chorou e suas lágrimas não foram vistas pelo menino. O matemático socialista não aceitava que até isso virasse produto. “O infinito por trocados”.Se levantou e correu até alcançar o menino.
- Hei, menino! Até quando os números vão?
- Não estou interessado. Me deixe ir.
O velho avançou até ele, esticou o braço esquerdo e lhe deu um soco que atingiu seu olho direito.
- É isso o que eles querem. Que você seja um rato podre que perambule no esgoto desta cidade, seu merdinha. Luta porra!
O menino chorou e suas lágrimas não foram vistas pelo velho. O analfabeto capitalista não aceitava um conselho político após uma porrada no olho. “Até quando os números vão?”
- Até o infinito velho! Se o problema é esse da próxima vez eu vendo a eternidade.
André Amaral - Teorias Infinitas
31/05/2009
29/05/2009
Brontops - pequeno infinito - 2009


























