11/12/2009

(e como somos mares sem margens, é impossível que nossas memórias encontrem algum porto (elas também são fluxo, também são mares, marés (passíveis de ganhar novas cores conforme mudam as texturas do céu (se ontem fui náufrago nessas águas é porque ainda não havia aprendido a linguagem das estrelas


Murilo Hildebrand Abreu

07/12/2009


Ana Carmo - S/título - fotogrfia - 2005

02/12/2009


Marcio Marianno - Transe - Pintura s/ papel - 2009


Koisan Uchoà - S/ título - fragmento de livro - 2004




Otacílio Melgaço

álbum: Spleen, dois fragmentos atextorturantes, ruidos.o.s., memoribonucleicos


29/11/2009


Lombra 1 - S/ título - fotografia analógica - 2009

Marcelo Marsan - Desconhecido e viril - fotografia - 2009


27/11/2009

Pequenas histórias sórdidas

“Ao passar pela guarita, os funcionários do prédio param de conversar, cumprimentam-no com o habitual boa noite e persistem calados até ele se distanciar rumo ao vestíbulo de seu bloco. No elevador, vigiado pela câmera, confronta-se no espelho. Ele sabe que há quem pense nele como homossexual por morar com a mãe e ouvir música clássica.”

O texto não está bom e fico lendo e relendo o parágrafo antes de decidir o que fazer com ele. Escuto então o chiado dos chinelos atrás de mim e inspiro fundo, preparando-me para sua chegada. Ela me pergunta o que é esta televisão, não tento explicar que é o note. Ela quer saber por que o pai não chegou até agora, eu deveria ligar para o serviço dele. Não repetirei que está morto. Salvo o arquivo, levanto-me. Ela se assusta ao me encarar. Desta vez, me reconhece. Admira-se ou se entristece: Minha Nossa Senhora, como você está acabado. Recomenda que eu largue Madalena, uma namorada antiga. Não sei por onde anda, se anda. Distancio-me rumo à sala, as paredes repletas de retratos e lembranças de lugares que desconheço. Ela me segue, um vulto de camisola, quase uma mortalha, quase um fantasma, não fosse o arrastar da borracha nos tacos. Esta Madalena não é mulher para você. Ela descreve todos os defeitos. Soube só recentemente o quanto a desprezava. Abro o piano e peço para se sentar. Ela ainda toca perfeitamente, quando começa pode ficar entretida por horas, absorta, absoluta, a alma intacta, os dedos ágeis nas mãos carcomidas pelo tempo. Gostaria de ouvir sua música, mas se recusa a me escutar. Percebo que não me deixará em paz. Quer atenção. Incito a contar algo antigo. Antigas histórias com quem já morreu ou quase. Adultérios, trapaças, vícios, torpezas, falcatruas. Algumas ela muda de protagonista para não se comprometer. Mas eu sei: só poderia ser ela. Deixo falar à vontade, enquanto meu olhar passeia pelas molduras e o papel de parede e o intrincado desenho do tapete e a escadaria dentro de outras escadarias dos tacos. O tempo passa e ela não para. Inspiro fundo. Continua seu monólogo, mesmo quando me levanto para buscar um dos espelhos escondidos pela casa. Sem dizer nada, entrego-lhe. Revelo seu rosto de velha, as rugas, os cabelos brancos. Ela se interrompe. Experimenta o relevo de sua própria face e tateia aquela do reflexo. A textura lisa no espelho deveria repousar na pele. Chora e grita. Chama pelos santos de devoção. Ela se afasta em lágrimas sem entender ou talvez entendendo o que acontece. Eu a amparo, a levo para o quarto. Apago a luz e encosto a porta. Ela logo esquecerá. Ela sempre esquece. Volto para a biblioteca sem livros na estante, caixas pardas de papelão pelos cantos, apenas o notebook sobre a antiga escrivaninha. Está tarde, demoro a engrenar: modifico o texto, continua curto, mas hesito em me alongar. Deixo para terminar no dia seguinte. Se conseguir.

“Ao passar pela guarita, os funcionários do prédio cortaram a conversa, deram o habitual boa noite e persistiram calados até ele se distanciar rumo ao vestíbulo de seu bloco. No elevador, vigiado pela câmera, confrontou-se no espelho. Suspeitavam que era homossexual. Não os culpava: um velho solteiro e refinado,cabelos tingidos e gostava de ópera. Ele mesmo pensaria o mesmo. Mas ninguém sabia que os cabelos eram tingidos para a mãe, uma ajuda para reconhecer o filho, mais velho do que deveria ser pela sua memória.
Talvez ele devesse atender a esta suspeita dos vizinhos. Assim evitaria a tentação de se deitar com ela. Seria fácil. Depois de vinte minutos, ela esqueceria e perguntaria pelo pai. Responderia o de sempre, papai acabou de sair. Mamãe então concluiria em um tom cínico e duro: logo vi.”

Brontops - 2009 - http://brontops.blogspot.com

26/11/2009


Mirian Homem de Mello - Por do Sol - fotografia - 2009

25/11/2009



Koisan Uchoà - S/título - poesia/intervenção (lambe lambe) - 2008

24/11/2009



Gustavo Peres - Mineral - Intervenção s/ fotografia - 2009

23/11/2009


Gina Dinucci - Retratos - intervenção s/papel fotográfico - 2007

21/11/2009



Fabiano Ramos Torres

19/11/2009


Sinval Garcia
distrações e desvios - fotocelular, 2009

(Copyright Sinval Garcia 2009 All rights reserved)
© Grupo UMCERTOOLHAR

17/11/2009

A Perspectiva do Cão.

"Dentro do rato as coisas eram por demais diferentes: somente quando passou a morar no rato é que Bauci pode enfim perceber a gênese dos ruídos: jurava que não estava louca na época em que ninguém ouvia o barulho das coisas sendo arrastadas, como se numa tarde a casa fosse convertida numa casa tomada, coisas que, como que por si próprias andassem de um lado a outro do assoalho. Agora sabia que os ratos eram a causa de tantas insonias. Ocorria que quando eles corriam pelas galerias, os órgãos eram lançados de um a outro lado. Bauci que outrora não dormia por conta do barulho, continuaria, por mais alguns meses, acordada: agora devido a uma atenção dispendiosa para evitar as colisões que certamente a esmagariam como a um filhote de rato sem pelos."

Fabiano Ramos Torres, 2009

14/11/2009


Natália Alavarce - Sem Título - fotografia - 2009

Natali Padovani - da série Invisíveis - técnica mista - 2005

Hugo Perucci - Sombra -pintura-técnica mista (Detalhe) -2006

Brunon Alcyone - Imagem Roubada -  colagem s/caixa de fósforo - 2009

12/11/2009

Manuela Eichner - Colagem - 2009

Chenepan-Lord Henry Wotton ... e eles atacam novamente - 2008

11/11/2009


Guilherme Valério - "O Mesmo Desenho de Novo" - desenho - 2009

10/11/2009

relevo na leitura

Acuse as alternativas falsas:

a) passando o dedo sobre a folha de papel na qual está impresso o texto, pode-se sentir a textura das palavras;
b)lê-se, com alguma dificuldade, o texto daquela língua cujo vocabulário não se domina;
c)lê-se, com intervalos de apreensão conteudística e reflexão, o texto de informações novas;
d) letras minúsculas em trebuchet seguidas de ) configuram sorrisos;
e) é o tempo, na leitura, quem constitui relevo.



Lucas Oliveira

09/11/2009


Jü Violeta - Brotando - Acrílica sobre papel de parede - 2009


04/11/2009


Luis Alexandre Lobot - Exposição Pública - intervenção - 2008

03/11/2009



Vânia Medeiros - Suspensão - Video-instalação
Parangochamas

Endiabrado, excomungado
sagrado e abençoado.
O corpo se despe dos resíduos
envolto em atemporal vestimenta,
na transparência que a pele pede
nas cores que o poros necessitam.
Na elasticidade que se movimenta
em imaculada e enlouquecida dança.
Na poesia que trafega e trespassa
o espaço em que o corpo se lança,
inabitável na inércia sufocante
amontoado no mofo do esquecimento,
sufocado em meio ás traças felizes
na tristeza em que a arte se decompõe,
dançando seu derradeiro movimento
na liberdade que nasce no fogo.

Ninil

02/11/2009


Maurício Parra - S/título -  gravura em metal - ponta seca - 2005

Márcio Marianno - S/título - Desenho - 2009

Rodrigo Motta - S/título - fotografia - 2009

01/11/2009


Marcelo Mansan - Teus risonhos, lindos campos têm mais flores - 2008
PAISAGEM ATO encaixa-se em RUÍDOS, TEXTURAS E MEMÓRIAS

30/10/2009


Tatiana Nolla - S/título - fotografia - 2008

23/10/2009

fábula dos Lobos


O fogo na lareira se acendeu em um fulgor alaranjado quando a pequena pilha vermelha de roupas infantis alimentou seu corpo impalpável. A menina nua subiu na cama rangente da parenta e deitou-se sob a coberta puída da velha para escutar a voz esganiçada narrar:

-Quando a primeira Chapeuzinho caiu naquele túnel estreito e carmim dentro da boca do Lobo ela tentou se agarrar nas reentrâncias dos tecidos que recobrem o poço vertical até o estômago, mas foi tudo em vão, ela caiu, caiu, e teria se dissolvido no ácido daquele lago se não fosse um outro menino devorado anteriormente. Ele fizera uma jangada com ossos não digeridos, pedaços roídos do couro de botas velhas, os pregos destas solas, dentes de ouro, a madeira das próteses, o conteúdo de bolsas amarradas junto ao corpo ou enfiadas no rabo dos viajantes covardes que temiam mais os ladrões que os Lobos. De tudo isto fez uma embarcação com a qual salvou Chapeuzinho. Ele a levou para um promontório onde outros sobreviventes se reuniam em uma favela miserável, iluminada pelos gases intestinais recolhidos por lanternas espetadas em varas pelo chão. Eram muitos e eram homens e mulheres e sobreviviam como parasitas daquilo comido pelo Lobo que nunca alcançava satisfação por mais que comesse, as costelas aparentes sob a pele e o pelo. O tempo passou e eles ali construíram uma cidade sobre palafitas de material indigesto, com enormes redes tecidas de fios de cabelo com os quais colhiam a chuva de gente e carne mastigada que vinham do olho negro daquele céu escuro. Assim chegaram as sementes e plantamos árvores e pomares que aprenderem a crescer na treva, as raízes se acostumaram a beber dos ácidos e do sangue, os frutos fosforesciam para atrair os pirilampos polinizadores. Ali os primeiros habitantes envelheceram para antes de morrer, terem filhos, e seus filhos tiveram outros filhos, até chegarmos nós duas, eu e você neste quarto no meio deste bosque. Saiba, minha neta querida e apetitosa, dizem que um dia virá um caçador que com seu machado romperá a derme e a carne deste nosso monstro que nos rodeia e veremos um cometa rasgar o céu desta noite, trazendo uma luz tão forte que nos cegará e neste dia sairemos da barriga de nosso hospedeiro velho e quase morto e saberemos então o que é o frescor e o que é o frio. Neste dia finalmente seremos livres para procurar um novo Lobo para viver.

Brontops - 2009 - http://brontops.blogspot.com

André Tietzmann - São Francisco Solar - desenho- 2009